terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Menino a bico de pena





"Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso — lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar.

Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu auto sacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco — pela bondade necessária com que nos salvamos — ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de n[??]s que, para construir o possível também sacrificaram a verdade que seria uma loucura..." (Clarice Lispector)
Essa é apenas uma minúscula parte de toda a beleza que o texto da Clarice possui. Mas não foi nada fácil compreendê-lo, passamos a aula toda nos colocando no lugar do menino, no lugar da mãe, no lugar da autora....discutindo, pensando o que cada nuance da história queria dizer. Também não foi fácil...discordávamos, relíamos, buscávamos respostas, "descoisificávamos" o menino até que ele passou a existir também diante de nossos olhos.
Aqui está a frase que mais chamou minha atenção: "...é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe." Porque eu acho que minha mãe precede meu choro, ela é mais mágica do que a mãe do texto e eu sou mais poderosa que o menino, rs... Mas a descoberta da certeza de que se chorarmos seremos socorridos é maravilhosa, essa é a primeira comunicação que estabelecemos como seres humanos, a mãe nos compreende pelo nosso choro. Tem mãe que identifica o que está acontecendo com o bebê pelo tom do choro, não é fascinante? Estabelecemos nossas primieras relações com o mundo, dessa forma.
Mas encerro louvando a forma delicada como Clarice nos põe no universo do menino...delicada como a escrita a bico de pena....

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