terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Fim

Aprendi muito, li de diversas maneiras diferentes. Não acredito que já esteja formada como leitora (eu que já achava que era uma leitora em potencial, rs), mas agora fiquei com um gosto especial depois de saborear as aulas da Eliana...sei que daqui pretendo continuar minha formação e continuarei escrevendo minhas impressões sobre o que leio nesse blog. Até....

Menino a bico de pena X O arquivo

" A emoção impediu qualquer resposta" ( Victor Giudice)
Comparamos os dois textos lidos. Vimos que no primeiro há a humanização do menino que antes é visto como coisa e no segundo há a coisificação de quem antes era visto como humano.
Quando ouvi a explicação que a Eliana deu sobre o desenho a bico de pena, dizendo que de longe você nem percebe direito a figura, pensei que as pessoas todas são "desenhadas" assim. Só bem de perto deciframos alguém, se é que deciframos ou apenas as enxergamos de acordo com as nossas próprias impressões....isso acontece em amizades, em relacionamentos amorosos...acontece ou acontecia? Como diria Eugênio de Andrade: "Isso era no tempo dos segredos"...
Hoje nada mais de bicos, de penas ou de pincéis finos. SEJAMOS COISAS: as caras são iguais, assim como os peitos, as barrigas, as bundas, os cabelos, os pensamentos. As pessoas nem são mais arquivos porque não carregam memórias, aliás parece que não carregam histórias....segues estereótipos, pré-definições, modas ditadas pela mídia que as escraviza e elas não enxergam.
Eu fiquei bem tocada com esse texto e tal qual a frase que postei lá em cima, acho que a emoção impede que eu prossiga....
Depois discutimos dois textos do Affonso Romano de Sant´anna onde claramente dava para perceber que devíamos "desaprender o aprendido e depois despoluir a realidade, despoluindo nosso discurso". Foi nossa última aula...Eliana pediu para que escrevêssemos sobre o percurso que seguimos nas aulas....Vamos ver se eu consigo:
Começamos nos apresentando uns aos outros e depois ouvimos outra pessoa relatar quem éramos, nossa história e nossas ambições narradas por outra pessoa. Fomos assistir a peça Leopoldina para observarmos um tipo de relato que é feito através de cartas. Falamos depois de nossas leituras favoritas e de como adquirimos a capacidade de decifrar os códigos escritos. Lemos o relato da vida de Lygia Bojunga. Fomos visitar a Cátedra, o espaço que privilegia a leitura. Depois debatemos sobre os direitos que um leitor possui e ouvimos "histórias sobre a história" da literatura mundial. Ouvimos os relatos sobre a inconfidência nos textos de Cecília Meireles. Tivemos que relatar outra memória nossa, a de um fato importante que ocorreu em nossas vidas. Novamente nosso relato foi feito na voz de outra pessoa, através do que ela absorveu diante do que contamos. Vimos outro tipo de relato, o do Borges e sua forma sucinta e simbólica de fazê-lo. Assistimos ao relato de todo um século através do filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos". Agora lemos "Por parte de pai" e percebemos como o autor pode dar voz a um menino, como se ele estivesse narrando a história. Pelo seminário, vi o relato da guerra de Canudos através do filme. Daí relatamos nossa vida aos oito anos a partir do poema de Casimiro de Abreu. Até chegarmos no relato do Menino a bico de pena e O Arquivo. Acho que começamos relatando memórias nossas, depois partimos para memórias coletivas para finalizarmos com a narrativa de memórias que são de dentro para fora, onde você narra de dentro do personagem, fazendo as suas impressões como se fossem dele.

Menino a bico de pena





"Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso — lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar.

Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu auto sacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco — pela bondade necessária com que nos salvamos — ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de n[??]s que, para construir o possível também sacrificaram a verdade que seria uma loucura..." (Clarice Lispector)
Essa é apenas uma minúscula parte de toda a beleza que o texto da Clarice possui. Mas não foi nada fácil compreendê-lo, passamos a aula toda nos colocando no lugar do menino, no lugar da mãe, no lugar da autora....discutindo, pensando o que cada nuance da história queria dizer. Também não foi fácil...discordávamos, relíamos, buscávamos respostas, "descoisificávamos" o menino até que ele passou a existir também diante de nossos olhos.
Aqui está a frase que mais chamou minha atenção: "...é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe." Porque eu acho que minha mãe precede meu choro, ela é mais mágica do que a mãe do texto e eu sou mais poderosa que o menino, rs... Mas a descoberta da certeza de que se chorarmos seremos socorridos é maravilhosa, essa é a primeira comunicação que estabelecemos como seres humanos, a mãe nos compreende pelo nosso choro. Tem mãe que identifica o que está acontecendo com o bebê pelo tom do choro, não é fascinante? Estabelecemos nossas primieras relações com o mundo, dessa forma.
Mas encerro louvando a forma delicada como Clarice nos põe no universo do menino...delicada como a escrita a bico de pena....

Debate sobre o filme-não fui

Precisei substituir uma professora que estava com o filho doente. A coordenação não tinha quem colocar e eu fui ajudar...Perdi o debate sobre o filme...

Enfim...Sociedade dos Poetas Mortos

" Não importa o que digam, palavras e ideias podem revolucionar o mundo." Hoje deu quase tudo certo, conseguimos assistir ao filme...quase tudo porque como eu não estava na primeira aula, não sabia que a turma tinha ido para a Cátedra e perdi o início do filme...pena! Sociedade dos Poetas Mortos é para ser saboreado do início ao fim...Essa deve ter sido a quarta vez que encontrei os meninos do professor Keating, mas esse encontro foi diferente. Pela primeira vez encontrei-os após estar trabalhando numa escola somente para meninos. Enxerguei-os em cada rosto que vi na tela. Claro que minha instituição não é mais opressora e nem os professores ditos "revolucionários" são colocados para fora, mas acho que os sonhos, os desejos e as alegrias do universo dos meninos estavam estampados lá da mesma forma como os vejo todos os dias...Me emocionei mais do que das outras vezes, enxerguei coisas que talvez nunca pude olhar, porque olhei de dentro: do lugar de quem trabalha numa instituição integral que só atende meninos e do lugar de quem participa de saraus de poesias. De repente o filme parecia parte da minha vida! Enquanto assistia pensava nas atittudes daquele mestre....todo professor já é um fora da lei por natureza...trabalhamos em casa sem remuneração, trabalhamos doentes, perdemos noites pensando em estratégias, corrigindo provas, nos afogando em folhas e planejamentos...tudo que é proibido pela CLT um professor faz. Mas marcamos vidas, modificamos atitudes...ao morrermos dificilmente descobriremos que não vivemos....
"Eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido".

Henry David Thoreau